Essa história me chegou por indicação de uma leitora querida, amiga daqui da minha cidade. E eu gosto quando uma história chega assim, quase como quem puxa pela manga e diz olha isso aqui com calma. Passei as últimas horas lendo, cruzando informações, voltando em arquivos, e a pergunta ficou martelando. Por que a gente não fala mais dela. Por que essa história não circula. Talvez porque ela seja desconfortável. Talvez porque ela seja forte demais para caber em legendas rasas. Talvez porque ela exponha feridas que o Brasil insiste em chamar de cicatriz. E por isso mesmo ela merece ser observada.
Bete Mendes nasceu em Santos, em 1949, e para muita gente sempre foi apenas atriz. Um rosto conhecido da televisão brasileira, presença constante em novelas, programas, entrevistas. Eu mesmo a via na TV quando era mais novo e jamais imaginei o que existia por trás daquela imagem familiar. E isso diz muito menos sobre ela e muito mais sobre o modo como o Brasil esconde suas histórias incômodas à vista de todos.
Enquanto construía sua carreira artística, Bete Mendes viveu a juventude em um país onde pensar em voz alta era arriscado. A ditadura militar não precisava estar presente o tempo todo com fuzis. Ela operava pelo medo, pela vigilância, pela certeza de que qualquer passo fora da linha tinha consequência. Artistas, estudantes, intelectuais e gente comum sabiam disso. E quem não sabia aprendia rápido.
A militância dela não se deu por grupos armados nem por ações espetaculares. Foi uma militância de integração com movimentos culturais, sociais e estudantis, espaços onde ainda se tentava respirar alguma forma de consciência coletiva. Só que, naquele Brasil, isso já bastava para virar alvo. Bastava para ter nome em relatório. Bastava para ser vigiada.
Em meados dos anos 1970, sob crescente pressão, Bete deixou o Brasil. No exterior, passou a falar. Deu entrevistas, participou de encontros, subiu em palcos e mesas para contar o que acontecia aqui dentro. Falava da repressão, da censura, do medo cotidiano, do funcionamento de um governo que se sustentava pela violência institucional. Não era discurso abstrato nem retórica ideológica. Era relato de quem vinha de dentro e sabia exatamente do que estava falando.
Quando decidiu voltar ao Brasil, o Estado já havia tomado nota. A resposta veio rápida. Bete Mendes foi presa e interrogada. Não foi uma detenção burocrática. Foram dias de isolamento, interrogatórios insistentes, pressão psicológica, ameaças diretas e indiretas. Aquele tipo de prisão que não precisa deixar marcas visíveis para reorganizar o medo por dentro de alguém. O recado era claro e dispensava explicação.
Algum tempo depois, veio a segunda prisão. E aqui não cabe suavização. Não foram horas, nem poucos dias perdidos no calendário. Foram cerca de trinta dias encarcerada pelo aparelho repressivo do Estado. Trinta dias sob vigilância constante, convivendo com o risco real da violência física e com a certeza da violência psicológica. Trinta dias em que o tempo não passa, ele pesa. Em uma prisão política, um dia já é suficiente para destruir alguém. Trinta dias são uma eternidade planejada.
Ninguém sai ileso de um sistema que transforma o medo em método de governo.
É a partir desse ponto que a história dela deixa de ser apenas pessoal e passa a dialogar diretamente com a engrenagem do regime. Porque quando Bete volta a circular fora do Brasil, já não é uma artista ingênua nem uma cidadã distraída. É alguém que conhece por dentro o funcionamento da repressão, que sabe como o Estado pune, como ameaça, como silencia.
Em 1977, durante uma viagem ao exterior, ela reconheceu um rosto que condensava tudo isso em uma só figura. Era Carlos Alberto Brilhante Ustra, então ocupando um posto oficial fora do país. O mesmo homem que havia comandado o DOI-CODI de São Paulo, um dos principais centros de repressão da ditadura. Um lugar onde a tortura não era excesso, era procedimento.
Bete o denunciou publicamente. Não como quem faz uma acusação abstrata, mas como quem aponta alguém diretamente ligado ao sistema que a havia prendido, ameaçado e silenciado. Ao retornar novamente ao Brasil, as consequências não precisaram vir em forma de nova prisão. Vieram de modo mais sofisticado. Boicotes silenciosos, contratos que evaporavam, convites que deixavam de existir, portas que se fechavam sem explicação. O controle já estava internalizado.
Com a abertura política e o início da redemocratização, Bete Mendes fez um movimento que poucos fizeram com tanta coerência. Em vez de se afastar da política, entrou nela. Foi uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores e se elegeu deputada federal por São Paulo no início dos anos 1980. Não foi uma transição confortável. Foi a tentativa de transformar experiência de dor em ação institucional.
No Congresso, atuou em pautas ligadas à cultura, aos direitos humanos e à reconstrução democrática. Mais tarde, após divergências internas, acabou deixando o partido e seguiu sua trajetória política em outras frentes, participando inclusive da Assembleia Constituinte que elaborou a Constituição de 1988. Também ocupou cargos na área cultural, tentando fortalecer políticas públicas em um país que sempre tratou cultura como adorno, nunca como base.
Já como deputada, Bete Mendes reencontrou novamente o passado que o Brasil insistia em empurrar para debaixo do tapete. Identificou Ustra ocupando um cargo diplomático e escreveu ao então presidente José Sarney, exigindo sua exoneração e o retorno ao Brasil para responder por seus crimes. Não era pedido de vingança. Era exigência de responsabilidade histórica. Era dizer que a democracia não poderia ser construída mantendo torturadores como representantes oficiais do país.
O Brasil escolheu outro caminho. Ustra nunca foi preso. Nunca respondeu criminalmente. Viveu livre até morrer em 2015. Antes disso, foi reconhecido pela Justiça, em ação civil, como torturador. Um reconhecimento tardio, simbólico, insuficiente. Mesmo assim, morreu sem cadeia, sem cela, sem o peso concreto do que fez.
Décadas depois, o ex-presidente da República, Jair Bolsonaro, elogiou publicamente Ustra no plenário da Câmara. Chamou de herói um homem reconhecido judicialmente como torturador. O mesmo ex-presidente que hoje reclama do barulho do ar-condicionado na cela, tratando desconforto como tortura.
Aqui a história dispensa metáfora. Tortura não é incômodo. Tortura é método. Tortura é Estado. Tortura é retirar de alguém a condição de ser humano enquanto se diz que é pelo bem da ordem.
Hoje, Bete Mendes está viva, aos 75 anos, longe do centro da mídia, mas dentro de uma das histórias mais incômodas e necessárias do Brasil recente. Se esse país tivesse uma relação menos covarde com a própria memória, ela seria lembrada não apenas como atriz ou ex-deputada, mas como alguém que falou fora do país, voltou sabendo do risco, foi presa, ameaçada, silenciada e ainda assim insistiu em apontar nomes quando todo mundo pedia silêncio.
Essa história não é passado. É espelho. E ele continua refletindo exatamente o tipo de país que a gente escolhe ser quando decide o que lembrar e o que fingir que nunca aconteceu.